November 2011
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Quero que as tuas mãos Me tapem os olhos Nos dias em que não estás. Quero que a tua boca Me beije de todas as vezes Que não quero falar.
Nunca sofri eu Tão pesado desatino. Teu sorriso divino Quem o deu? Sou um barco à deriva, As marés soltas e rodopiantes, Sangrentas e mirabolantes Do tempo assim o obriga. O meu castigo é esse; Procurar-te nos cantos infinitos, Rumar, incerto, por sítios esquisitos. Será tão fácil alguém perder-se? Todos os dias peço que não, A minha última confissão.
Quis soletrar a paixão Numa dessas noites em claro Onde o som da chuva, no passeio, Me lembra o eco dos teus passos. Mas tudo isto são palavras, Escritas num papel. Queria apenas a câmara lenta Dos teus beijos e dos meus. Vejo-te em sonhos, Embaraços de voos lentos, Partilhados no espaço. Uma primavera sonolenta, De vozes sumidas. E assim se passam os dias…
October 2011
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Hey! Mr. Tambourine Man, play a song for me
I’m not sleepy and there is no...
– Bob Dylan
“Vem por aqui” — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me...
– José Régio
August 2011
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Ter, à vista de uma janela, os Alpes alinhados em fileiras de dentes afiados que desafiam o céu, prometendo a fúria gritante da mordida da terra. As nuvens que os tentam cobrir, manchadas com o laranja solar do final do dia, vão morrendo aos poucos, com um ou outro pico mais audaz, que rompe a simplicidade de algodão onde o branco dessas nuvens se confunde com o esmalte da montanha de neve.
A...
June 2011
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Batendo contra as rochas Num fluxo de ondas e de saliva No oceano celestial que é o teu cabelo Onde brinco, entretanto, perdido no tempo Esquecendo que, neste momento, Me encontro à deriva, em alto mar, À espera da despedida Ansiando que ela nunca aconteça Num desespero de doido varrido Entre abraços, demasiado penosos, para largar. Talvez que, por águas santas, Ou milagrosos desejos de...
Espantado pelos espartilhos Das ruas estreitas e vazias Que sufocam Lisboa, Na solidão das janelas Onde velhos se vêem, Em redor dos jazigos Dos melhores de Portugal.
April 2011
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O brilho indiferente do Sol, Sobre a comoção que não quer sair. Apetece-me rir para esquecer Mas só me sai um sorriso nervoso Por não ter um discurso Nem palavras, nem ordem. Ouço apenas o barulho mecânico Dos segundos do relógio no meu pulso, Que bate, continuando a vida, Mesmo quando levo as mãos à cara Tentando controlar o choro Numa violência de estrangulamento. Numa estúpida tentativa.
March 2011
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Faltam-me as palavras em momentos como este.
February 2011
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Dreams appear much more prominent and clear when the dreamer is in an unhealthy...
– Fyodor Dostoyevsky
Permita-me desafinar a conversa e destruir o meu lado cortês. Desembainhar as palavras de fogo que queimam, docemente, as lágrimas de suor do teu corpo. Remover o vestido negro ao som dos teus gestos, sempre perfeitamente delineados, cortando o ar com os braços magros, a pele branca e o olhar preso no meu.
Sou um desastre. Ancorado num Inverno cinzento, cheio do teu cheiro doce, morto de cansaço, ignorando o fim das horas. Sou um absurdo. Faltam-me ideias e uma certa maneira de ser. Algo que não me repugne ou me transforme em ódio à nascença de mim mesmo sobre um espelho ou retrato. Talvez ser apenas correspondido, a cada carta ou viagem, pelos sucessivos falhanços que as palavras corrompem e...
January 2011
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Como num paraíso inerte, Feito de luzes vermelhas Chás exóticos e distantes Perfumes de gente boémia Cigarrilhas apontadas Para obras de arte Cuidadosamente indispostas Numa minúcia de desatino Que só o alternativo encontra. Eis que te encontro, Num café velho, Depois de uma rua escura Feita de Inverno frio Escura, triste e suja Está essa rua de Inverno. E lá te sujeitas A aturar-me as melancolias...
Não, a sério, a felicidade, esse estado difuso resultante da impossível...
– António Lobo Antunes
December 2010
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Para que te entenda a beleza áspera, Vendo a alma. Sonho o passado. Para mim isto basta, Boa noite.
I wish I would want to talk About reasons But I don’t want to talk.
Maybe later, by the river. Or tomorrow, in your room. I’ll be friendly and social. I’ll punch the occasional joke too.
I wish I could do things The way you do But I don’t want to do them.
Let’s skip inside, Turn up the music And hide under the sheets Where we used to cry.
I just don’t understand why, everytime we talk, it seems as if you’re always angry at me. Like I did something wrong, or said something incredibly stupid. Maybe I did, maybe I said. Maybe I am. But I’m just like the time you met me and just like the time you kissed me and only the day has changed.
I’m still the one who makes silly jokes, who listens to jazz in the dark of...
Depressa me acaba A montagem macabra, Do teu vil espanto De desarrumado pranto.
Vivi numa casa desenfreada. Com dores pelo corpo morto Por estar cheio de nada. Com a alma cruzada e tronco torto.
Vem o frio ranger-me os ossos, Que partem finos, em mil destroços. Que se evadem, rápidos, ágeis. Deixando-me a pele e os músculos frágeis.
Olho a nudez da janela. O campo traduz-me a paisagem E o...
November 2010
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Quero libertar-me do meu espaço.
Ser a raiz moderna da rebeldia
Que me atravessa o quarto.
Mas não posso.
Preso aos afazeres da ciência
Durante meses. Preso como doente
A uma cama febril sem sono.
Sem possibilidade de dormir.
Tudo dói em desespero…
Queria que fosse expresso, rápido,
Passageiro e fugaz.
Não é nada disto e é lento.
Lento com um suave apagar
Da minha alma que, com...
October 2010
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The twilight reveals a blue horizon and the chair in the varanda from upon which I seat, creaks as I move to better glaze into the slow evening lights. It’s now time for the street lamps to rise above, setting a lovely mood and for the night to settle in, passionately.
I wish I was a new beginning. A new torn piece of paper Written by willing stars, Filled with the light Of a new world, Built by the fire in my red velvet lungs And broken noses, Of the million fights I’ve been having with myself.
The moon casts it’s silver light across the patio and I’m sitting on the stairs, outside, in the coldest of the nights. We talk to each other on a gentle note about our violent life and I can’t stop shivering from the deep numbness caused by the wind. Neither one of us wants to break even and the lyrics for ‘Love Will Tear Us Apart’ echo in my mind like steps in my...
“Estou cansado da inteligência.
Pensar faz mal às emoções.
Uma grande...
– Álvaro de Campos
Maybe there is reincarnation. Maybe we are dying and being born again, over and over. That would explain why we’re becoming more and more bored.
- “How can someone hold so much, resist so much and hope so much? And my suffering seems yet so frivolous with the almost dementia twisted, horror film like hopelessness of the world. We live among such an impetuous sadness and sickness that...
Devolve-me o espanto o ver o vento, inerte aparente, soltar folhas de uma certa árvore num Outono quente. O vento que se liberta também perante um céu vermelho de uma noite do mesmo Outono perfeito. Adoro a sua raiva de inexperiente, tentando conter-se, suprimindo a sua vontade até ao instante final e fatal onde é demais impossível. Rebenta enfim, soltando a sua amargura sobre a gente que vive na...
Pensar por pensar, Penso no fim de tudo. Na dor abstracta que nela contém Este pensamento simples E a sua promessa De um apaziguamento Deveras eterno.
September 2010
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Your eyes are what i long for. The superb tranquility of them That soothes the pain of the long days And opens the arms of worlds alike.
You’re the reason battles begin. With all your treasures well hidden inside, Waiting for an untold truth to come by, Close to you, in a gentle, lonely touch.
As if the falling rain, the air or the sky They would all think the same. They all think...
Moments of solitude Slowly become Moments of loneliness. I could keep you waiting But if it’s just same, I’ll be on my way. Sleeping on the middle of the road Head aching, bones are breaking You were the one Who kept me from breaking off But now you’re gone. My life’s desires, They’re just the same to you. If you would care, I would even fly To meet you. But nothing...
August 2010
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Na generalidade das coisas Trabalha o tempo, Na sua precisão científica Da física dos planetas. Do resto, resto eu. Sou a parte mais ínfima Da colisão do tempo Com um Deus qualquer. Por isso tenho que me seguir Pelo dois, entre os dois, Até ser tempo de morrer.
Não consigo mais prometer nada. Não vejo senão motivos e jogos, Que escondidos, te fecham do Mundo. Queria ver o que vês Só para saber do que falo. É impossível e assim, é impossível.
Quis ser melhor do que os outros Por isso escrevi. Já me arrependi. Não tenho agora eu descanso Apenas noites que passo sem dormir Seguidas de dias a reflectir. Solitário e solidário com a caneta Que assenta sobre o papel vazio. Encho-o, esvaziando-me a mim. Preencho-o, esquecendo-me de mim. Não há escritor algum que seja egoísta. Somos, mas apenas à falta De um melhor termo.
Subo por esta rua inclinada, seguindo-a sozinho e carregado com os livros que gostaria de ler esta tarde. Não vejo absolutamente ninguém. Reparo na fachada cor-de-rosa de uma casa gigantesca que ladeia a rua, seguindo-me com as suas janelas brilhantes, reflectindo o Sol laranja do fim do dia. Este mesmo laranja aliás, rodeia-me e à minha sombra enquanto caminho. Estar aqui no meio do nada faz-me...
July 2010
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Ter na alma
Uma página em branco.
Correr as ruas
E ser livre.
Ser eterno.
Ser Deus.
Que mal terá
Querer o Mundo
Ou ser eterno?
Ou viver depois de morto…
E ser feliz assim,
Neste desconexo.
Numa embrulhada de loucuras,
De gritos e de sangue
Que vivem da velocidade de frases
Que me saem pela boca.
Que me transtornam,
Que me ocupam o pensamento.
Que escrevo com repulsa.
Que...
I step outside this closed room, filled with smoke from the legendary cigarettes that made this country famous. There’s a crazy calm in the air, like a giant leap over a volcano. A soft breeze and flickering headlights from the cars on the highway, miles away, compose this picturesque image of Brooklyn’s finest landscapes. I can’t stop but to think about her last words and the...
Tenho agora tanta paz e nunca tive tanta vontade de sentir a inquietude. Nunca, até agora, senti tanto a sua necessidade. De me entregar à paixão. É tudo uma contradição e, só agora, o vejo.
Percebo, no entanto, que haja sempre aquela esperança de tudo ser diferente. De me aperceber e de me preparar. Saber distinguir momentos, no fundo. Saber que agora, a solidão ocupa este lugar e saber...
Durante a vida, um milagre. Sento-me no fim da cama, olhando pela janela aberta, sentindo o ar frio que por ela se escoa. Fecho os olhos e sinto a necessidade abrupta de me deixar levar, de me abater. Deixo-me cair no chão, entregue a essa decadência. No desespero sou assim, infinitamente entregue à sorte.
Estou deitado sobre o chão e sinto o seu limite físico. Quero que o meu corpo se molde ao...
June 2010
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Maquinalmente penso nas coisas. Na forma abstracta como o fumo se escoa, toldando o ar à sua vontade, no seu movimento ligeiro e delgado, desafiando a gravidade com elegância. Exactamente como uma mulher que anda na rua, estreitando-se pelos passeios, na graça dos seus sapatos de salto que a projectam contra a liberdade de um andar vagaroso e delicado.
São apenas excertos de pensamentos que me...
May 2010
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Encontro-me parado. Enquanto o comboio galga toda a distância que mede a minha origem ao meu destino, encontro-me parado, sentado e simplesmente à espera. É como se dormisse o tempo inteiro e, com efeito, por vezes vejo quem dorme do meu lado, pondo em prática esta minha ideia. Mas invejo sobretudo quem, pelo contrário, viaja de olhos bem abertos, colados na janela, absorvendo rapidamente a...
April 2010
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Os sonhos que me assaltam Numa fuga crepuscular De imaginação que, de tão incerta, De tão fugidia e dispersa, Me tortura na altura de assaltar Sem ternura nenhuma Esse sonho incerto que perdura E que vive somente de atacar Na visão dilacerante que não sei contar No vislumbre que não tenho Do meu sonambulismo que não lembro Do sonho que na realidade, Para mim, nunca existiu. E a existir, que...
Vivo no intermédio absurdo entre a não-experiência divina e a epifania humanista de que já fui vítima. Sou portanto, fruto de experiências casuais com o meu pensamento e dito as minhas próprias acções.
Debaixo de tantos tectos, de tantas casas que me poluem a vista, vive-se, por norma, descontentamento. Vive-se em desejos absolutos de luxúria e de comportamentos exacerbados pela destruição de um sentimento de senso comum que me aflige. Tudo o que foi anteriormente sagrado, é agora perturbado por noções de falsa mudança, resignando a satisfação pelo simples a uma promessa por cumprir. Há...
Surpreendentemente, vejo-me no vidro translúcido de uma porta Que abro com invulgar lentidão, a medo. Foco o olhar no meu olhar, no reflexo suave e disperso Que nesse vidro habita. O desistir de tudo é uma luta. E, perdido como estou, no meio dessa luta, Que de tão absoluta, me parece absurda. Penso nisso enquanto passo pela porta. Não chegam todos os momentos do Mundo, Que em conjunto, me lembram...
February 2010
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“I wanted to get out and walk southward toward the park through the soft twilight, but each time I tried to go I became entangled in some wild, strident argument which pulled me back, as if with ropes, into my chair. Yet high over the city our line of yellow windows must have contributed their share of human secrecy to the casual watcher in the darkening streets, and I was him too, looking...
January 2010
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For a true writer each book should be a new beginning where he tries again for...
– Ernest Hemingway
Estranho é o momento com que te vejo Quase sentir o quase. Quase ser perto. Quase sentir o perfume e misturar-me no teu lado. Ser mais perto, ser enfim, mais perto. Nunca vi eu, mistura mais perfeita, Tão bonita e sedutora. Essa tua mistura Do magro do vestido com o negro da noite. Com a luz da lua ou com a luz que é tua. Perfeito o Mundo que é teu. Onde apenas o vestido é negro E onde apenas não...
Ser perdido no mundo Entre a distância Da geografia que sempre Me perseguiu. Fugir e ser brilhante, Exactamente por isso. O libertar do que, Agora vejo, Nunca foi meu. Como o libertar-te. Um último adeus. Foi a finitude, A consumação, A liberdade enfim… O fugir rápido De um pássaro Que, temendo-se, Voa em aceleração, Percorrendo o espaço. Fugindo da sua aparição Na superfície cristalina De...
December 2009
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A vida hoje é infinita.
Ser eu e ser o céu Que transpira a amargura De um ano que passa Sem se notar ou se fazer notar. Feito pelas promessas Que fogem para longe E se escondem em todo o lado, Sempre onde não estou. Fosse eu poeta e seria tudo Tão diferente. Fosse eu poeta e mudava tudo Para algo tão diferente. O ano que passa, A promessa esguia.
November 2009
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A companhia, curva, olhando o olhar
Que ancião, procura, a moeda
Que espera que nasça da mão.
A mesma que segura, a mesma que é tua
A mesma mão a quem dou a mão.
E não largo eu essa mão, nem por toda a amargura
De quem passa por mim,
Sentado na rua, de olhar no céu,
Pregado na lua, pregado no meu.