'ORPHEU

Sunday January 16, 2011

Como num paraíso inerte,
Feito de luzes vermelhas
Chás exóticos e distantes
Perfumes de gente boémia
Cigarrilhas apontadas
Para obras de arte
Cuidadosamente indispostas
Numa minúcia de desatino
Que só o alternativo encontra.

Eis que te encontro,
Num café velho,
Depois de uma rua escura
Feita de Inverno frio
Escura, triste e suja
Está essa rua de Inverno.
E lá te sujeitas
A aturar-me as melancolias
Num sorriso aberto.
Falo do trabalho,
Falo do estudo e de tudo.
Ouves com a atenção demorada
De quem espera
A verdadeira essência das coisas.

Num beijo solene,
Levas a chávena à boca
E bebes, delicadamente,
Um carioca de limão,
Adocicado como eu,
Tão normal quanto eu.
Gosto do ar nervoso
Com que não me fitas.
Com medo da lente
Que se estica
Para o teu rosto.

E lá te encontro
Na fotografia que fica
Mais presente que a memória
Que desvanece, com a velhice.
Mas a fotografia fica.
Com os tons quentes
Do vapor de porcelana
E do olhar tímido
De quem se esconde
Atrás de uma simples chávena.