'ORPHEU

Sunday April 11, 2010

Surpreendentemente, vejo-me no vidro translúcido de uma porta
Que abro com invulgar lentidão, a medo.
Foco o olhar no meu olhar, no reflexo suave e disperso
Que nesse vidro habita.

O desistir de tudo é uma luta.
E, perdido como estou, no meio dessa luta,
Que de tão absoluta, me parece absurda.
Penso nisso enquanto passo pela porta.

Não chegam todos os momentos do Mundo,
Que em conjunto, me lembram de ti.
Enquanto paro, já fora, junto a essa porta,
Que te separa de mim.

Olho o horizonte entre suspiros de céu quente.
Desprendo-me da fachada onde me encostei por perder o norte,
Mas vou seguindo, sempre em frente
Contrário ao que já foi o meu destino.

Não consigo deixar de pensar, ainda que só agora,
Como tudo isto foi tão passageiro e intermitente.
Num momento tudo perfeito, tudo inocente
E no outro, uma tempestade exigente.