Os sonhos que me assaltam
Numa fuga crepuscular
De imaginação que, de tão incerta,
De tão fugidia e dispersa,
Me tortura na altura de assaltar
Sem ternura nenhuma
Esse sonho incerto que perdura
E que vive somente de atacar
Na visão dilacerante que não sei contar
No vislumbre que não tenho
Do meu sonambulismo que não lembro
Do sonho que na realidade,
Para mim, nunca existiu.
E a existir, que ficará?
Nenhuma memória ou irritação
Ou verdade ou lição
Ou tortura ou vontade
Perdurarão para além da perdição
De acordar sonâmbulo
E de não lembrar.
Venham até mim
As páginas dos livros que passadas
Dos olhos chorosos que as leram
Com os versos perfumados
Verdades pecaminosas
E risos disfarçados
Fizeram desses olhos,
Que nunca vi em luar nenhum,
Felizes olhos chorosos.
Venha a tristeza absoluta
Do vapor reminiscente
Desse café que me fizeste
E do seu sabor amargo
Como a tua boca no Inverno.
O sabor do pecado e da luxúria
Que só posso sentir quando te tenho.
No eterno da floresta
E dos chás estrangeiros
E da chuva que é nossa.
Menos as palavras dos livros
Que queimados pela luz, as tomo como minhas.
Pestaneja no teu doce canto
Que proteges com os braços,
Envoltos em ti própria,
Em tua defesa.
Do meu ataque, da minha absolvição.
A tortura que me crias
A paixão que atiças
E os beijos que lanço
São tudo o que não sinto.
Mas faço-te sentir que o sinto.
Quebrando estilhaços
Que de partidos achei que eram poucos.
Voltando ao ciclo
Que criei sem querer
Sem paixão nenhuma a ter
Mas criei sem saber.
Wednesday April 14, 2010