Durante a vida, um milagre. Sento-me no fim da cama, olhando pela janela aberta, sentindo o ar frio que por ela se escoa. Fecho os olhos e sinto a necessidade abrupta de me deixar levar, de me abater. Deixo-me cair no chão, entregue a essa decadência. No desespero sou assim, infinitamente entregue à sorte.
Estou deitado sobre o chão e sinto o seu limite físico. Quero que o meu corpo se molde ao chão. Não! Quero que o meu corpo se misture com o chão. Queria fazer parte de algo diferente e o chão era a escapatória mais perto de mim neste momento. Queria entregar o meu pensamento a ele e libertar-me, ser um vegetal. Não consigo no entanto, como é óbvio. Sinto o seu limite físico.
Encosto a cara e sinto o abraço frio daquele chão no meu quarto a entregar-se a mim sem que eu tenha forma de o parar. Queria ser eu a entregar-me, mas não consigo. Queria só libertar-me deste sentido físico, desta barreira fenomenal entre as coisas que existem. Sinto o meu corpo inteiro pressionando o chão e o chão a empurrar-me o corpo. É como se estivesse vivo, pelo menos tão vivo quanto eu.
A minha atenção agora está voltada exclusivamente para o que ouço. Tento ouvir o bater do coração da madeira que compõe o chão, mas não consigo. Tento definir a minha e a sua existência. Sinto o meu corpo alimentado pelo frio do chão e a recusa da nossa mistura por esta barreira mas não percebo porque dizem que eu vivo e aquele chão não. Como poderei ter a certeza?
Tento adormecer. Dormir é o meu ópio, a minha fuga. É o único sítio onde não penso porque não consigo sonhar. Agora muito menos. Agora é quase impossível e por isso mesmo, quero adormecer.