'ORPHEU

Sunday July 4, 2010

Tenho agora tanta paz e nunca tive tanta vontade de sentir a inquietude. Nunca, até agora, senti tanto a sua necessidade. De me entregar à paixão. É tudo uma contradição e, só agora, o vejo.

Percebo, no entanto, que haja sempre aquela esperança de tudo ser diferente. De me aperceber e de me preparar. Saber distinguir momentos, no fundo. Saber que agora, a solidão ocupa este lugar e saber aproveitá-la. Saber que já tive o coração perdido nos olhos verdes que se transformavam com a luz e apreciar como uma dança lenta, esse instante. Abraçar o momento com força, simplesmente.

Quero suprimir-me ao calor deste quarto. Deito-me na cama olhando apenas o tecto, sentindo o calor do tempo e ouvindo o jazz do Coltrane que me lembra de ti, por ser quase tão bonito.

O meu olhar está fixo no candeeiro aceso, mas não é isso que vejo. Ocorrem-me outras imagens que se sobrepõem à sua luz amarela que enche as paredes e que cobre em sombra alguns dos móveis. Lembro-me do teu olhar, sempre a mesma imagem, guardada no meu pensamento, na minha mente, de maneira quase infantil pela teimosia que a guardo e recupero em tantos momentos do dia.

Tu, olhando-me fixamente, deitada sobre a relva e com ambas as mãos entrelaçadas nas minhas. É comovente. Não consigo apagar essa imagem de ti. Não quero, aliás.