'ORPHEU

Sunday August 7, 2011

Ter, à vista de uma janela, os Alpes alinhados em fileiras de dentes afiados que desafiam o céu, prometendo a fúria gritante da mordida da terra. As nuvens que os tentam cobrir, manchadas com o laranja solar do final do dia, vão morrendo aos poucos, com um ou outro pico mais audaz, que rompe a simplicidade de algodão onde o branco dessas nuvens se confunde com o esmalte da montanha de neve.


A tranquilidade do espaço, aqui tão perto, reina soberana. Não há bicho nenhum que aqui apareça. Não há confusão ou desacato. Há sim a sensação de imensidão abrupta, que não se constrange apenas ao azul maciço do céu ou ao cobertor aveludado e inerte que me serve de chão fictício, mas continua muito para além disso, até às sombras quase nocturnas do vermelho vivo do último suspiro do sol, que vai morrendo, dando luta até ao fim. O vermelho do seu sangue cobre tudo em seu redor e torna-se apenas mais um momento absoluto de infinito sobre o qual me debruço a admirar por momentos.


Apenas penso em sentir-te.