'ORPHEU

Saturday August 14, 2010

Subo por esta rua inclinada, seguindo-a sozinho e carregado com os livros que gostaria de ler esta tarde. Não vejo absolutamente ninguém. Reparo na fachada cor-de-rosa de uma casa gigantesca que ladeia a rua, seguindo-me com as suas janelas brilhantes, reflectindo o Sol laranja do fim do dia. Este mesmo laranja aliás, rodeia-me e à minha sombra enquanto caminho. Estar aqui no meio do nada faz-me perder na imensidão desta rua que, na realidade, pouco mais larga que dois automóveis será. Sinto-me minúsculo enquanto julgo ser empurrado por uma réstia de vento suave que se aproxima de mim, devagar. Lenta brisa neste tempo quente que, nesta rua nua e vazia, me lembra o meu quarto enquanto eu, envolto nas suas quatro paredes, me deito na cama a pensar.

Penso, sobretudo, como seria esta rua inundada de gente, num falatório constante, todos seguindo como uma corrente num qualquer rio. Imagino-me, preso numa das margens, segurando-me a esta fachada cor-de-rosa, com o medo de me deixar levar. Se me deixar, será tudo tão incerto.

Irónico é estar agora, aqui finalmente, e tudo isto ser precisamente o oposto. Subo a rua estreita, seguindo-a solenemente, num passo sempre constante e a medo. Queria sobretudo parar, exactamente no meio desta. Não sairia daqui enquanto não aparecesse figura, alguém, no fundo, que partilhasse a falta de ritmo e que quebrasse a monotonia e abandono voraz que é atraído para esta mesma rua infeliz.

Quem sabe não me voltasse para essa pessoa, perguntando-lhe o nome, obrigando-a também a parar. Aí, os dois exactamente no centro desta rua, começaríamos o meu sonho. Esta parte da minha imaginação, pelo menos.